terça-feira, 20 de outubro de 2009
Dança de Chuva
Há dois homens imóveis
Sobre as ondas que não param
Debaixo deles uma construção em tábuas
Que flutua qual palco montado para um bailado improvável.
O sorriso do sol feito amarelo e quente
Calor nos meus ombros e luz nas vagas
Os homens bailarinos são figuras negras.
E agora é Outono, altura do pintor de céus
Chega com um pouco de vento
E muitas tintas
Invadem de repente a tela que olho de baixo
Enquanto perde a luz, ganha as cores
Outros azuis, cinzas, chumbos e pinceladas de branco
Assim como que olhos que incham antes do choro.
E caem três gotas, promessa do pranto que tudo lava
Sinto a compulsão desta escrita desenhada que abandono à chuva
Numa dedicatória
A todos os que alguma vez pensei ver dançar no palco da minha vida
E que talvez só tenham ficado imóveis
Balançando-se nas ondas do meu pensamento.
Para ouvir? Não sei, talvez Dulce Pontes... (desculpem o video)
Sem Bico de Lápis; Caneta de feltro e água da Chuva sobre papel Canson.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O Gato Mágico
Chegar a casa já hoje, a uma hora algo tardia.
Noite de conversa retardada de coisas não ditas ou de nada para dizer.
Último cigarro da noite, enquanto o chá é feito.
Levar o livro e o chá para o quarto, acender as luzes...
Zunga!
Gato!
Gato?
Escondido atrás da cama?
OK! OK!
Falta o Chapeleiro e eu não sou a Alice...
Bem, se se chatear é real.
Não se chateia.
Por onde entraste?
Também não importa. Em minha casa muita gente entra, sem saber onde se meteu, e sem eu saber por onde se meteu. Nunca me tornei mais cuidadoso. Nunca comprei mais fechaduras, nem mais cadeados.
Bom! É para ficar ou é visita breve?
É tarde e ambos parecemos cansados. Onde ficam as olheiras de um gato?
Boa noite!
Apagar a luz.
Acordar com um lamento miado.
São cinco da manhã, chiça!!
Onde te meteste?
Atrás dos livros. Claro, em minha casa tudo se passa atrás dos livros!
Queres sair?
Não sabes...
Abro a porta, mostro o caminho e não sais.
São seis da manhã e não sabes, e não sais, e eu tenho sono, e descobriste o caminho de volta para o quarto.
Se és um gato posso abrir a janela e desenvencilhas-te, não?
Boa noite e mais uns miados.
És um incompetente se não consegues saltar para o parapeito e daí para o mundo.
Gato Mágico não fiques como algumas pessoas na minha vida: janelas e portas abertas e elas a pedir um mapa do caminho ou um mapa da alma.
Sou só o fulano das portas e das janelas, mapas cada um desenha o seu. Chama-se Vida.
E adormeço.
E de manhã, ao acordar, não estás.
Gato, só percebi que não eras sonho
que não eras mágico
graças à caca que tive que limpar no poliban.
Obrigado por seres educado.
Tem gente que teria feito merda por todo o lado.
Eu e o Gato ouvimos Belle nuit, ô nuit d'amour
P'ra vêr? Desligue o computador e olhe o ecran negro.
Desenhado com Bico do Lápis e colagem de uma velha e querida Sweat-Shirt.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
O tempo pendurado no quarto para as seis.
O tempo mede-se; inventámos isso.
Compramos objectos giríssimos para medir o tempo.
Buzinam, chamam-nos, acordam-nos, disciplinam-nos.
E o dia, que é uma unidade de tempo, mede-nos.
Ao final de um dia ele diz-nos o quanto de nós foi conseguido.
Gosto de tomar tempo para mim.
Houve uma altura em que tinha muito tempo.
Depois, encontrei com quem o partilhar.
E veio o tempo do nosso tempo.
Um dia aprendi que já só havia tempo.
Não comprei nenhum novo aparelho para medir o tempo,
mas passou a ser o meu tempo
e o teu tempo.
Escrevo isto no meu tempo.
Enquanto espero que chegues trazendo o teu tempo.
Falaremos de nós a um tempo?
Tic, tac, tic, tac faz a máquina que mede o tempo
diminuindo a distância que falta para que o teu tempo
e o meu tempo
tenham uma hora em comum.
Leonard Cohen - Hallelujah
Nada p'ra ver...
Bico de lápis e colagem de cordeis.
A Cor dos Eleitos
Elejam, porra, elejam!
Votem, chiça, votem!
Escolha a cor que quiser e pinte o desenho a seu gosto.
Opte! Não deixe que pintem por si!
Enquanto escolhe pode ouvir Opeth- The Baying of the Hounds.
Bico de Lápis e colagem de lápis de cores politicas sortidas.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O Paraíso na Mercearia
Casa é onde estou.
Os meus móveis favoritos são as malas de viajem, as mochilas, os trolleys, todas as coisas onde transporto a casa onde vivo.
O sítio de onde parto e onde junto todos os regressos, é o meu temporário. Uma espécie de armazém.
Estou agora no meu temporário 14 ou 15, já não sei bem.
Fica num local onde o tempo não é muito frio no Inverno e não tem calor no Verão. Nunca chove até à inundação, nem faz aquele vento que manda tudo ao chão. O mar é... Bom, o mar é o mar, temperamental, mas aqui não sofre de grandes fúrias e nunca provoca muitos estragos.
É certo que há dias em que os barcos dos pescadores não saem a barra, mas são poucos esses dias.
Na Mercearia, que é pequena, todos se congratulam:
"É um cantinho do Paraíso"
dizem comentando o Telejornal e as inundações em Tomar e na Ásia, ou a ventania em Ferreira do Zêzere e o tufão na Indonésia.
"Isto é tão bom que é pena não o aproveitarem melhor, é pena nunca acontecer nada..."
Como poderia acontecer alguma coisa num local onde nem pela força da Natureza nada cai ao chão e portanto se desconhece a força e vontade necessária para recomeçar?
Perco a fome, compro só dois queijos frescos, uma garrafa de vinho e abandono a conversa de anjos neste canto do Paraíso.
Peniche, 8 de Outubro de 2009
Vou ouvir Starry, Starry Night de Don Mclean e dar uma olhada na Macabre Gallery só p'ra aliviar!
Ah! Desenhado com Bico de Lápis, marcador, colagem de iluminura moçárabe e folha de louro, que é sempre um bom tempero.
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